Conforme antecipado no post da semana passada, seguem algumas considerações sobre mensuração e aperfeiçoamento da efetividade de programas de relações com investidores (“RI”), desenvolvidos levando em consideração três estratégias básicas: (i) gestão das expectativas do mercado; (ii) gestão da base acionária; e (iii) geração de valor aos acionistas.
A boa gestão das expectativas do mercado é vital em qualquer programa de RI. Afinal, o valor de mercado de uma empresa tem relação direta com a sua percepção de risco pelos investidores. Quanto maior a homogeneidade entre os formadores de opinião (analistas de sell side e jornalistas econômicos), menor a percepção de risco e, portanto, maior o valuation da empresa. O mercado tende a valorizar (preferir) as empresas que não surpreendem (negativa ou positivamente) nos resultados.
Essa gestão começa com a análise contínua da dispersão das estimativas dos analistas de sell side sobre a companhia, comparativamente às expectativas para os seus pares (ou demais empresas cobertas por um grupo de analistas). Adicionalmente, no caso de companhias que fornecem guidance ao mercado, avaliando-se também o quão distante está a projeção da empresa comparativamente à média das expectativas dos analistas de sell-side.
E o que se espera de um Super RI? Simplesmente que a dispersão entre as expectativas dos analistas para a sua Companhia seja a menor comparativamente à de seus pares e que, preferencialmente, a média das expectativas de mercado seja a mais em linha com os resultados que a companhia espera entregar.
Fácil, não? Nem tanto. Somente um Super RI possui domínio do negócio (seu e dos pares), das estratégias e dos drivers de valor, além de credibilidade junto aos analistas, para saber provar seus argumentos e projeções junto a esses formadores de opinião.
A segunda estratégia de atuação contempla alta eficiência na gestão da base acionária. Acreditem …. base acionária se administra. Para isso, há que se entender, profundamente, a dinâmica dos investidores institucionais, ou seja, compreender o perfil de cada um (turnover, filosofia de investimento, localização geográfica, setores de interesse, expectativas, etc). Com isso, é possível iniciar dominar os movimentos de liquidez e volatilidade dos ativos negociados, além de se antecipar tendências que permitam nortear as ações da equipe de RI.
Adicionalmente, essa atividade permite a identificação de potenciais investidores que ainda não estão como acionistas correntes e desenvolver um programa de visitas no sentido de apresentar a história de investimento da sua companhia, discutir vantagens competitivas e diferenciais em relação aos seus pares mercadológicos.
A atividade de RI apresenta muita semelhança à função de marketing. Nesse caso, o produto é a ação da sua companhia e os profissionais de RI devem estruturar um sólido programa de comunicação com os principais públicos: analistas de sell-side; analistas de crédito/rating; investidores institucionais; mídia financeira; investidores pessoas físicas e CVM/BM&F Bovespa.
Simples, não? Nem tanto. Somente um Super RI possui as características diferenciadas para desempenhar essa estratégia com excelência (adicionalmente ao domínio do negócio (seu e dos pares): fluência em inglês e dom para vendas. E como medir a qualidade do Super RI? Basta acompanhar a evolução da composição da sua base de acionistas (por perfil desejado) e a taxa de conversão de “potenciais acionistas” em “acionistas da companhia”.
Finalmente, a geração de valor aos acionistas. Essa terceira estratégia parte da constatação de que nós não somos o que realmente somos, e sim como nós somos percebidos pelo mercado.
Portanto, a história de investimento da sua empresa deve ser sólida o suficiente e muito bem contada, de forma a que isso reflita em uma condição de “preferida” pela maioria dos analistas. Essa condição assegura um múltiplo acima da média e a geração de valor aos acionistas.
Diferentemente das duas primeiras estratégias, a maior geração de valor requer mais critérios técnicos e domínio dos concorrentes. O Super RI deve dominar o conceito de análise de “swot”, múltiplos EBITDA (e Lucro líquido) e upside para crescimento do preço da ação, adicionalmente a considerações qualitativas advinda de um sólido estudo de percepção junto a analistas e investidores institucionais.
E o que se espera do Super RI além de mostrar resultados concretos nessa terceira estratégia, no sentido de crescer os múltiplos relativos aos pares e crescer o upside do preço da ação? Espera-se que esse profissional tenha tamanho domínio do mercado de capitais, a ponto de ser uma voz desejável nos conselhos de administração quando esse estiver reunido for avaliar e tomar decisões estratégicas. O Super RI deve antecipar a reação do mercado e definir a melhor forma de capitalizar essa geração de valor.